O município-arquipélago de Ilhabela ostenta com orgulho o título de cidade com maior índice de preservação da Mata Atlântica no Brasil. Com orgulho, como se tal título se devesse exclusivamente à civilidade de seus habitantes, ao trabalho do poder público ou ao respeito que à cidade devotam os que aqui vêm buscar turismo e lazer. Entretanto, quem conhece a história local e percorre nossas ruas, praias, rios e florestas, sabe que a responsabilidade por esses oitenta e poucos por cento de preservação se deve à geografia majestosa dessa Ilha, com suas montanhas agressivamente altas, ao profundo canal que a separa do continente e à criação do Parque Estadual, que evitaram que Ilhabela se transformasse em mais um aglomerado de concreto entupido de automóveis, como tantas outras cidades do litoral brasileiro.

Ironicamente, as mesmas características geológicas e geográficas que até aqui vêm protegendo este local, agora o colocam na lista dos paraísos em vias de extinção. A primeira ameaça vem de nossa localização a duas horas de São Paulo, metrópole que sofre um verdadeiro êxodo de moradores que fogem da violência, do trânsito, do estresse e da poluição. Regiões mais pobres do país, como o interior de Minas e da Bahia, também despejam aqui migrantes em busca de trabalho e condições mais dignas de vida. Não é por outro motivo que há alguns anos Ilhabela vem registrando um dos maiores índices de crescimento populacional do Brasil.

A segunda ameaça vem das próprias belezas naturais, que atraem um fluxo de turistas cada vez mais descontrolado, com picos sazonais que na alta comprometem a qualidade de vida e na baixa penalizam a organização turística e a economia local. A terceira ameaça está na potencialidade portuária do canal de São Sebastião, que promete transformar nossa região de vocação eminentemente turística em um frenético corredor de exportação. E por último, mas não menos ameaçadoras, estão as imensas jazidas de gás e petróleo em nossa plataforma continental, que aliadas ao terminal marítimo de São Sebastião, por onde corre metade do petróleo consumido no Brasil, nos transformam na bola da vez de uma matriz energética baseada em combustíveis fósseis causadores do aquecimento global, com todos os desdobramentos conhecidos em termos de desastres ambientais.

Combinados, esses movimentos exercem uma pressão que começa a se tornar insuportável em um município que não recebe investimentos em infra-estrutura nem possui planejamento de longo prazo para fazer face a todas essas ameaças simultaneamente. O resultado tem sido a ocupação desordenada das áreas de preservação, o aumento das mortes no trânsito, os congestionamentos em férias e feriados, a falta de saneamento básico, a poluição dos rios e das praias, a barulheira que compromete a paz, as crises políticas e a falta de participação popular nas decisões do poder púbico, além da ausência de civilidade no relacionamento cotidiano entre moradores e turistas.

Por outro lado, não podemos esquecer que Ilhabela possui excelentes recursos humanos e sociais, além de imensas riquezas naturais ainda intocadas. É verdade que temos mais de 80% de Mata Atlântica preservada. Temos um manancial de água doce que será um tesouro incalculável em um planeta assolado pelo aquecimento global. Temos um imenso e ainda inexplorado potencial turístico, em escala nacional e internacional. Temos nossa tradição nos esportes náuticos, com particular ênfase para a vela. Temos uma rede de pessoas altamente influentes, que aqui construíram casas de veraneio ou mesmo se mudaram com suas famílias, e se mostram prontas a auxiliar os esforços em prol de Ilhabela com seu peso político e financeiro. Temos uma enorme presença na mídia, onde ecoam ao mesmo tempo nossos problemas e nossas belezas naturais. E temos ainda a força da centenária cultura caiçara, que além de enraizar todos os que aqui nasceram, pode servir de amálgama para criar uma comunidade digna do século 21, ao mesmo tempo coesa e aberta, integrando migrantes de todas as partes do país e do exterior, beneficiando-se simultaneamente da determinação dos paulistas, da força dos mineiros, da alegria dos baianos e da sabedoria dos estrangeiros que escolheram nossa Ilha como lar.

Nós que fazemos parte do Movimento Nossa Ilha Mais Bela acreditamos que a única maneira de extrair o máximo de nossas potencialidades, promovendo o desenvolvimento sustentável e garantindo a qualidade de vida em Ilhabela, é estimular a mais ampla mobilização da sociedade civil. Para isso é fundamental recuperar a confiança da população nos processos políticos e valorizar a democracia participativa. Somente através dessa mobilização poderemos reunir forças políticas, sociais e econômicas capazes de comprometer a sociedade e sucessivos governos do arquipélago com objetivos claros, materializados em um conjunto de indicadores e metas de curto, médio e longo prazo.

Movimentos como o nosso já foram lançados em metrópoles brasileiras como o Rio e São Paulo. Com eles aprendemos e trocamos idéias e experiências. Entretanto, dadas as características e o tamanho de nossa cidade, acreditamos que o sucesso de Nossa Ilha Mais Bela pode servir de inspiração para milhares de pequenas cidades em todo o país, lançando as sementes de um Brasil sustentável. Um país que combine de forma harmoniosa o desenvolvimento econômico, o desenvolvimento social e proteção ambiental.